#ExtraordinariamentePink: #CartaDeAmorAosMortos
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#CartaDeAmorAosMortos: Olá Vó, faz muito tempo...

Faz muito tempo desde que vi seu sorriso pela última vez. Creio que após esse período, o meu próprio riso não sorri mais como antes, permanece guardado, meio quieto, um tanto quanto abafado dentro de minha garganta.
Faz muito tempo desde que vi seu olhar pela última vez. Dos meus olhos brotaram lagos que desovam em oceanos sem fim, inundando tudo quanto é canto de pequenas gotas transparente e molhadas, um pouco mais irritantes, um pouco menos inquietas que meus sorrisos. Que rolam e rolam e rolam e rolam, num infinito mar de transparência cinza. 
Faz muito tempo desde que ouvi sua voz pela última vez e disso se fez meu silêncio. Ainda faço tentativas sem sucesso de me lembrar quais foram suas últimas palavras direcionadas a mim antes de abrirem um buraco em sua garganta e sua respiração ser substituída por ondas pulsantes de um aparelho. Esses sons ainda me assombram, no entanto eu continuei fazendo silêncio, para que a lembrança desse som me lembre a todo instante o quanto eu fui incapaz de fazer esses ruídos cessarem.
Faz muito tempo desde de que te abracei pela última vez e juro que se eu soubesse que ali se findaria, eu a teria abraçado mais. Hoje meus braços permanecem abertos na esperança de que o universo traga de volta pra mim a sensação do seu abraço. 
Faz muito tempo desde que eu te vi pela última vez. E faz muito tempo desde que vi a mim mesma também. Me perdoe se talvez eu tenha andado meio perdida ou meio alheia a esse mundo, é que as vezes esse muito tempo faz doer como uma ferida pulsante e em carne viva.
Ainda assim, espero que haja tempo para refazer o tempo. 
Mas faz muito tempo desde que o tempo não é mais muito. 
E se acaba.
E se entristece.


#CartaDeAmorAosMortos: Vó, como vai Summerland?

Vó, embora Summerland pareça e seja mesmo um lugar maravilhoso, eu espero de todo coração que a senhora tenha atravessado a ponte. 💕
Aqui no mundo dos vivos nada mudou muito. Na verdade isso é uma grande mentira. Tudo mudou. Desde que a senhora teve seu fio prata da vida cortado, não recebemos mais visitas aos domingos. O céu é sempre cinza e Sol nunca mais esquentou como se fosse o Sol. 
Eu nunca mais consegui enxergar a minha vida da forma que eu enxergava antes: cheia de planos e cheia de sonhos.
Eu praticamente parei no tempo e perdi completamente a noção do que se foi feito dele. E eu esqueço muitas vezes de que ele não para.
Vó, eu perdi o interesse em algo que me fazia extraordinariamente feliz: a música. Eu não consigo mais encontrar prazer em meus versos favoritos e em tantos CDs que demorei anos para colecionar e que agora me soam mudos. Silenciosos ao ponto de não mais terem importância.
Eu estou sendo sincera quando digo que estou constantemente atormentada. Não encontro paz. Em nada.
Sempre tenho a sensação de estar perdendo aquilo que não tenho. De estar me segurando a nada. Parece que olho minha vida ser protagonizada por alguém que não sou eu e por mais que eu grite até perder completamente o ar, é inútil, pois não sou ouvida.
Tem dias que não consigo distinguir o que é verdadeiramente real. O que tangível. Palpável. O que posso me dar ao luxo de dizer que está na minha frente, ou o que é algo criado pela minha cabeça.
Eu gostaria muito de saber se isso é apenas comigo. Pois eu vejo tantas pessoas seguindo a vida normalmente e eu realmente não consigo entender.
Sabe vó, não me entra em mente que alguém que tenha perdido um alguém que tanto ama e que tenha tanta importância possa seguir com a vida. Eu não vejo sentido. Talvez eu esteja apenas deprimida. Por quase dois anos. 
Mas quanto mais tento me aproximar da realidade, mais abstrata ela se torna.
Um beijo do mundo dos vivos, que bem, desde que a senhora o desabitou, ele está mais morto do que de costume.